Selecionar palavras-alvo nos transtornos motores de fala parte de quatro critérios: a extensão da palavra, os sons que a criança já tem no repertório de fala, o uso da palavra no dia a dia dela e as pistas multissensoriais de que ela vai precisar para falar. Sem esses quatro pontos, a resposta não vem, e a criança trava diante da palavra.
Tem criança que recebe a palavra, o modelo, a repetição, e não fala. Muitas vezes, a palavra oferecida não é a adequada para ela, e aí ela nem tenta.

Por que selecionar palavras-alvo no transtorno motor de fala
Nos transtornos motores de fala, a criança sabe o que quer falar e tem falhas em planejar, programar ou executar os sons. Sem ajuda para o cérebro dela fazer essa parte, ela não consegue.
Isso muda a escolha das palavras. No trabalho de linguagem, qualquer palavra do repertório que a criança precisa aprender serve, e esse trabalho segue caminhando junto com a fala quando ela tem demanda de linguagem. Na fala, não: se o treino é bola num dia, casa no outro e pipoca no outro, a criança com transtorno motor de fala não aprende nenhuma, porque cada palavra nova exige planejar e programar uma sequência de sons que ela ainda não dá conta.
O objetivo da seleção é ajudar o cérebro da criança a planejar e programar a palavra até ela conseguir falar sozinha, no caminho para uma fala espontânea e inteligível.
Fonema-alvo e palavra-alvo no transtorno motor de fala
Pensar por fonema é um hábito justificado. O fonoaudiólogo aprende assim desde a faculdade, e o transtorno fonológico, em que esse raciocínio funciona, é o que mais chega ao consultório. No transtorno fonológico, se a criança não tem o /r/ brando, o fonoaudiólogo instala o som e treina uma lista de palavras com ele, barata, aranha, de qualquer tamanho, e a criança caminha.
Levado para o transtorno motor de fala, esse hábito vira uma prancha com o mesmo som em palavras de todos os tamanhos: pato, pipoca, paralelepípedo. No transtorno motor de fala, a grande dificuldade está em falar os fonemas encadeados, um depois do outro, formando a palavra. A criança pode fazer o "pá" e continuar sem falar "pato", porque o que falha é a junção dos sons.
Insistir em instalar um fonema ausente também custa caro: há fonoaudiólogo que passa meses tentando instalar uma família de sílabas e a criança segue sem falar, porque no transtorno motor de fala o objetivo é ganhar extensão de palavra, não instalar som.
Por isso, no transtorno motor de fala, a seleção é oposta à do transtorno fonológico: em vez de olhar o fonema ausente, olha os sons presentes, e o foco sai do fonema e vai para a palavra-alvo. A exceção é a criança não verbal, que ainda não produz nenhum som: com ela, trabalhar sons, como o som da chuva, é o começo.
Os quatro critérios para selecionar palavras-alvo
1. Extensão da palavra
O primeiro critério é saber quantas sílabas a criança dá conta de falar. Muitas crianças com transtorno motor de fala dão conta de palavras menores e, conforme a quantidade de sílabas aumenta, deixam de conseguir. Esse limite é o ponto de partida da seleção.
A criança não verbal está em zero sílabas, no início do processo. Para ela, a seleção começa em no máximo uma sílaba: duas ou três, nesse momento, ela não vai falar.
Palavra acima do limite trava a criança. Quando a família oferece "olha o jacaré" ou "pipoca" para quem ainda está no início, a criança sequer tenta. Ela já sabe que não dá conta.
O que conta nessa medida é a extensão que a criança produz com as sílabas emendadas, de forma coarticulada. A criança que fala uma palavra de três sílabas separando cada pedaço ainda está produzindo monossílabos, e a que solta só o "tá" de "batata" está em uma sílaba. Essa leitura exige ouvido treinado, e é uma das primeiras coisas que a Letícia Silva ensina no Fala Sem Limites, com a avaliação de rastreamento e áudios de pacientes para treinar a escuta em cada nível. O artigo sobre avaliação de transtorno motor de fala mostra como a triagem chega a um conjunto inicial de palavras-alvo.
2. Inventário fonético: os sons que a criança já tem
O segundo critério é levantar quais fonemas já estão no repertório de fala da criança e partir deles. Combinados, os sons que ela já tem formam palavras novas e aumentam o poder de fala dela: ela passa a falar o que precisa.
Um exemplo: a criança não fala "mamãe" e fala "papai". O /p/ já está disponível, e é com ele que se formam as próximas palavras. "Mamãe" também vai ser ensinada, mais adiante.
O mesmo raciocínio ajuda a escolher entre palavras parecidas. A criança fala "bo" para "bola". Se ela ainda não tem o /l/, "bola" pode não ser a melhor escolha agora, e "bota", a que ela usa na chuva, pode ser mais fácil. Resta conferir, com os quatro critérios, se "bota" é uma boa palavra para essa criança.
3. Palavras funcionais
O terceiro critério é escolher palavras que a criança usa no dia a dia. Quanto mais funcional a palavra, mais oportunidades ela tem de praticar fora do consultório, e a prática repetitiva, um dos princípios de aprendizagem motora da fala, é o que faz a palavra automatizar. Palavra de treino que a criança não usa em casa até cabe, como linha de apoio para a engrenagem rodar dentro da extensão que ela dá conta, mas o lugar principal é da palavra funcional.
4. Pistas multissensoriais
O quarto critério é usar pistas multissensoriais, pelo menos duas entradas ao mesmo tempo entre visual, auditiva, tátil-proprioceptiva e metacognitiva, para a criança conseguir falar a palavra escolhida. A seleção pode estar perfeita: sem a pista, ela não fala. No transtorno motor de fala não existe caminho sem pista multissensorial.
Essa criança precisa que alguém ensine a falar de forma explícita e direta, com suporte de pistas. Dizer "olha a uva, fala comigo: uva" e esperar a imitação é tiro no escuro. No Método MultiGestos® Letícia, a pista mostra para a criança o movimento que a boca faz em cada som de "uva" e depois ajuda a juntar os três sons na palavra. O trabalho de linguagem caminha junto, com a palavra treinada entrando no contexto dela.
O que acontece quando a seleção ignora os critérios
A Letícia Silva conta em aula o caso de uma criança que chegou até ela falando pedaços de palavra: "cucu" para cocó, "iu" para caiu, "xi" para abacaxi. Em casa, a mãe, tentando ajudar, ensinava jacaré, elefante, cachorro, biscoito, madrinha. E se queixava: fico tentando fazer ele falar biscoito e ele não fala.
A criança estava no monossílabo. Palavras de três e quatro sílabas, acima da extensão que ela dava conta, não tinham como sair, e ela nem tentava. É o que a Letícia vê na avaliação: a criança vai até onde dá conta e, a partir dali, se cala. Diante de pé, bola e elefante, uma criança com transtorno motor de fala chega a desviar o olhar na palavra grande, porque já sabe que não consegue.
O mesmo acontece com a prancha montada pelo fonema: ela ignora a extensão que a criança dá conta e segue a lógica do som ausente. A criança trava e não se expõe.
Perguntas frequentes sobre seleção de palavras-alvo
Quantas palavras-alvo selecionar por vez?
Poucas. A Letícia Silva ensina a focar em um número pequeno de alvos por vez, e esse número depende da criança: do que ela já produz e da extensão que ela dá conta. Uma folha com muitas palavras de todos os tamanhos faz a criança travar: ela vai até onde dá conta e, a partir dali, se cala. E a palavra automatiza com prática repetitiva, então pesa mais a palavra que a criança usa no dia a dia e repete muitas vezes.
Palavra-alvo ou fonema-alvo: qual escolher em transtorno motor de fala?
Palavra-alvo. No transtorno motor de fala, a grande dificuldade está em falar os fonemas encadeados para formar a palavra: a criança pode aprender a fazer "pá" e continuar sem falar "panela". O raciocínio por fonema é o do transtorno fonológico. A exceção é a criança não verbal, com quem trabalhar sons é o começo.
Existe uma lista pronta de palavras-alvo para transtorno motor de fala?
Uma lista única, aplicada igual a todo paciente, não serve ao transtorno motor de fala. A seleção parte da extensão que cada criança dá conta e dos sons que ela já tem, e a lista única repete o problema da lista por fonema: oferece palavras que a criança ainda não consegue planejar e programar.
Como selecionar palavras-alvo para uma criança não verbal?
Com o mesmo raciocínio, a partir do início do processo. A criança não verbal ainda não entrou na rota da fala, então a seleção começa em monossílabos, e as vogais entram aí, porque vogal é monossílabo. Quando a criança ainda não tem todas as vogais, a vogal isolada é trabalhada com pistas multissensoriais: as vogais estão presentes em todas as palavras e são elas que dão o movimento para a consoante. Trabalhar sons, como o som da chuva, também faz parte desse começo.
Esse raciocínio vale para apraxia de fala na infância?
Vale. A apraxia de fala na infância é um dos transtornos motores de fala, com dificuldade no planejamento e na programação dos sons, e a seleção de palavras-alvo pelos quatro critérios se aplica a ela. Os sinais do quadro estão no artigo sobre apraxia de fala na infância. Leia também: DTTC na fonoaudiologia: o que é e como aplicar.
O próximo passo depois da seleção
Os quatro critérios dizem qual palavra escolher: a que essa criança consegue planejar, programar e executar agora, com a pista de que ela precisa.
Método MultiGestos® Letícia
Fala Sem Limites
No Fala Sem Limites, curso da Letícia Silva exclusivo para fonoaudiólogos e estudantes de fonoaudiologia, esse raciocínio ganha as ferramentas de aplicação: a avaliação de rastreamento da fala, que mostra em que nível de extensão a criança está e quais sons ela já tem; os áudios de pacientes, para treinar a escuta em cada nível; e o banco de palavras-alvo por extensão, material de consulta para pensar a palavra de cada criança, não lista pronta. O curso também ensina a diferenciar transtorno fonológico de transtorno motor de fala e a percorrer a Rota da Fala Sem Limites, do monossílabo à fala espontânea.
Conhecer o Fala Sem LimitesLeia também
- Transtorno Motor de Fala (TMF): diagnóstico e tratamento
- DTTC na fonoaudiologia: o que é e como aplicar
- Apraxia de fala na infância: guia para fonoaudiólogos
- Avaliação de transtorno motor de fala: protocolo clínico
- Instalação de fonemas quando o paciente não evolui
- Transtorno fonológico x transtorno motor de fala
- Exercícios para apraxia de fala e quebra de coarticulação
Letícia Silva é fonoaudióloga (CRFa 6-4549) e psicopedagoga com mais de 20 anos de prática clínica em Transtornos Motores de Fala. Criadora do Método MultiGestos® Letícia.
Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação fonoaudiológica presencial.
Publicado em 26 de setembro de 2026. Atualizado em 02 de outubro de 2026.