Duas crianças com TEA (transtorno do espectro autista) chegaram ao atendimento da fonoaudióloga Letícia Silva com pouca ou nenhuma fala. A primeira, não verbal, em quatro semanas passou a produzir monossílabos, vogais, junção de sons, duplicação de sílaba e alguns dissílabos. A segunda levou em torno de seis meses para falar as duas partes de uma palavra, e perto de um ano para juntar as duas de verdade, sem quebra.
Uma tinha atraso motor de fala. A outra, apraxia de fala na infância. As duas erravam vogal e não davam conta de palavras maiores, dois sinais que aparecem nos dois quadros e não dizem qual deles a criança tem. O que separou os diagnósticos foram as características que apareceram na fala de cada uma depois que a intervenção começou.

Os sinais que aparecem nos dois quadros
O primeiro é a dificuldade na extensão da palavra. Diante de uma palavra maior, a criança não fala ou fala só uma parte: "pato" sai "pá", "sapato" sai "tô". Uma criança com transtorno fonológico fala todas as partes da palavra, ainda que troque sons dentro dela. Quando a qualidade da fala despenca à medida que a palavra cresce, o sinal é motor. Ele diz que existe um transtorno motor de fala, e não qual deles.
O segundo é o erro em vogal, que gera muita dúvida. A criança falar vogais não descarta atraso motor de fala. O português tem sete vogais orais (a, é, ê, i, ó, ô, u), e a Letícia dá modelo das sete na avaliação, porque a criança pode dar conta de cinco e falhar na versão aberta ou fechada do E e do O. Depois dos dois anos de idade, quando as vogais já deveriam estar adquiridas, erro em vogal é sinal de alerta para uma questão motora.
Às vezes ela fala a vogal isolada e erra dentro da palavra. Um paciente falava "cacá" querendo dizer "cocô", entre vários outros erros em vogal. Esse tipo de troca não acontece no transtorno fonológico, em que a criança troca consoante, não vogal.
Esses dois sinais mostram que existe um transtorno motor de fala e deixam em aberto qual é. Com um repertório muito pequeno, talvez ainda não dê para diferenciar. E sem amostra de fala, como na criança que chega não verbal, o diagnóstico não fecha: o primeiro passo é começar uma intervenção diagnóstica e identificar as características conforme a fala evolui.
Caso 1, de não verbal às primeiras palavras em quatro semanas
O primeiro caso é de uma criança com TEA que chegou não verbal, sem falar nenhuma palavra. A abordagem de linguagem ela já tinha recebido, e evoluiu nela. A fala não veio, porque nunca tinha havido uma intervenção voltada para a fala.
A proposta foi uma intervenção diagnóstica voltada para a fala. No caso dessa criança, especificamente, a intervenção foi intensiva, três vezes por semana.
O trabalho começou com pistas multissensoriais e material do Método MultiGestos® Letícia. Em um mês, quatro semanas, a criança saiu do não verbal e passou a produzir monossílabos, algumas vogais, junção de sons, duplicação de sílaba e alguns dissílabos. Até ali, ela não tinha tido uma abordagem voltada especificamente para a fala.
Só com esse repertório deu para olhar as características de fala. Entre elas:
- Dificuldade em alternar o local de articulação. Para falar "oi", a boca sai da protrusão e vai para a retração. A criança ficava presa num dos dois movimentos, e o "oi" saía "ou, ou, ou" ou "iii".
- Dificuldade na extensão da palavra. Dava conta dos monossílabos e travava nas palavras maiores.
- Erro em vogal. Chegou sem falar todas as vogais, acrescentava um som junto com a vogal em algumas e errava a vogal dentro da palavra.
- Coordenação deficiente de mandíbula. Abertura e fechamento pouco coordenados e projeção da mandíbula para a frente na hora de falar.
Entre as palavras que ela ganhou estava "Pepa". Essas características apontam muito mais para atraso motor de fala. Com um mês, a Letícia já tinha segurança para dizer à família que havia um transtorno motor de fala. O subtipo veio na sequência: mais um mês de intervenção, e aos dois meses o atraso motor de fala estava fechado.
A velocidade, sozinha, não fecha esse diagnóstico. Uma aluna perguntou à Letícia se o critério para fechar atraso motor de fala é a resposta à intervenção. Não é: o critério são as características. O que levou ao atraso motor de fala foram os sinais motores nas palavras que ela passou a falar, e uma resposta desse tamanho em quatro semanas, que não acontece na apraxia de fala na infância, entrou como mais um sinal. Nem toda criança permite fechar tão rápido.
Com essa criança, estava acontecendo a grande preocupação de quando o investimento fica só na linguagem. Ela evoluiu, evoluiu, evoluiu em linguagem, e não falou. Com um mês de abordagem adequada, respondeu. É uma criança que já poderia estar falando há muito mais tempo.
Linguagem e fala precisam caminhar juntas. Esperar a linguagem desenvolver para só então trazer a fala é um risco grande quando existe um transtorno motor de fala.
Caso 2, a evolução lenta da apraxia de fala na infância
O segundo caso é de uma criança também com TEA, com apraxia de fala na infância severa e um repertório de fala muito restrito na chegada. Um atraso muito importante, e a quebra de coarticulação já aparecia na junção de dois sons dentro de uma sílaba.
O primeiro diagnóstico foi transtorno motor de fala, sem dizer qual. Para fechar apraxia de fala na infância, a Letícia precisa identificar as características específicas do quadro na amostra de fala. E quando a criança já tem o diagnóstico de TEA, a diferenciação pede mais cuidado: TEA e apraxia de fala na infância têm repertório de fala reduzido, por razões diferentes, e alterações de comportamento e questões sensoriais que se confundem. Essa diferença fica mais visível depois da intervenção diagnóstica.
Um detalhe poderia ter levado a descartar a apraxia cedo demais: nos dissílabos duplicados, "xixi" e "vovó", não havia quebra de coarticulação. Muitas crianças conseguem coarticular o dissílabo duplicado. Onde agarra mais, e isso é bem característico da apraxia de fala na infância, é na junção de sons diferentes dentro do monossílabo, como em "ai", "oi" e "eu".
Essa criança também tinha erro em vogal, isolada e na palavra, e uma série de outras características motoras. Quando a Letícia pedia "ai", ela fazia só o "a", e a segunda parte não saía de jeito nenhum. Com as pistas, a segunda parte veio, e com ela um intervalo grande entre um som e outro.
Quebra de coarticulação em monossílabo é um sinal de alerta forte para apraxia de fala na infância.
Evoluir nessa quebra foi muito difícil. Em casos mais severos a quebra de coarticulação leva tempo, e o caminho é insistir até conseguir a resposta. Com seis meses de intervenção, a criança falava as duas partes da palavra, o "a" e o "i", ainda com intervalo entre elas. Coarticular de verdade, sem quebra, levou perto de um ano.
A explicação está no próprio quadro. A apraxia de fala na infância é uma dificuldade de planejamento e programação motora dos sons da fala: a criança não sabe o que fazer com a boca para falar. Ela fala uma parte da palavra e precisa planejar e programar uma segunda parte, diferente. Isso é muito difícil, e por isso demorou tanto.
Em pacientes graves, é preciso conhecer o caminho que a intervenção está percorrendo, para ter segurança e conseguir esperar respostas que nem sempre são rápidas. Sem esse conhecimento, a tendência é desistir e trocar de abordagem no meio. O que sustentou a evolução dessa criança foi persistência e constância na mesma abordagem. Esse caminho, etapa por etapa, do não verbal à fala espontânea, é a Rota da Fala que a Letícia ensina no Fala Sem Limites.
O que fechou cada diagnóstico
No atraso motor de fala, a falha está na execução dos sons. A criança sabe o que fazer com a boca, planeja e programa o movimento, e na hora de executar falta precisão e coordenação, com instabilidade de mandíbula. É um atraso na maturação do sistema motor de fala, três a quatro vezes mais comum que a apraxia de fala na infância. Aparecem distorções, acréscimo de som na palavra para ganhar estabilidade e desvios de mandíbula, e a alteração de prosódia é mais sutil. A resposta à intervenção tende a ser mais rápida. As características do caso 1 apontaram para esse quadro.
Na apraxia de fala na infância, a falha está no planejamento e na programação. No caso 2, três características apareceram juntas:
- Quebra de coarticulação, desde os monossílabos e, depois, também no dissílabo.
- Alteração de prosódia. Quando a criança faz a quebra de coarticulação, a prosódia já se altera.
- Inconsistência dos sons. A mesma palavra, pedida em repetição, saía cada vez de um jeito. Inconsistência só se vê pedindo a mesma palavra mais de uma vez: a criança que fala "bola", "sapo" e "caneta" uma vez cada não mostra se é inconsistente.
Uma dessas características não basta, e duas também não. A Letícia só fecha apraxia de fala na infância com as três juntas, como determina a ASHA, a associação americana de fonoaudiologia. Sem as três, não é apraxia, ou a amostra de fala ainda é restrita demais para mostrar.
Uma amostra de fala maior deixa essa definição muito mais fácil, e ela precisa ter fala espontânea, nomeação e imitação. Se a dúvida entre apraxia de fala na infância e atraso motor de fala continua, talvez a amostra ainda não seja suficiente. O roteiro de avaliação de rastreamento que organiza essa amostra é o que a Letícia passa no Fala Sem Limites.
A intervenção começou igual nos dois casos
A intervenção dos dois casos foi feita com o Método MultiGestos® Letícia, uma abordagem multissensorial para a fala que usa várias pistas, entre elas pistas gestuais, gestos manuais que auxiliam a fala. A pista multissensorial serve aos dois quadros: ajuda na falha de planejamento e programação da apraxia de fala na infância e na falha de execução do atraso motor de fala.
No caso 2, a junção do "a" com o "i" veio com recurso visual e com o gesto, associados à letra. Com a letra, a criança tinha a pista do que a boca precisava fazer, e a letra era algo que a motivava: ela se engajava muito.
No início, a Letícia ainda não tinha um diagnóstico específico, se era um quadro ou o outro. A intervenção começou personalizada para a etapa de cada criança, trazendo as pistas do mesmo jeito. O que funciona hoje para os transtornos motores de fala são os princípios de aprendizagem motora da fala, com pistas multissensoriais, nos dois quadros. O que muda de uma criança para a outra é a etapa da rota em que ela está e a resposta que ela dá à pista, e é essa leitura, caso a caso, que a Letícia ensina no Fala Sem Limites.
Os sinais de cada quadro, um a um, estão nos artigos sobre atraso motor de fala e apraxia de fala na infância.
Perguntas frequentes sobre atraso motor de fala x apraxia de fala na infância
A criança fala todas as vogais. Dá para descartar atraso motor de fala?
Só por isso, não. O português tem sete vogais orais, e a criança pode falar cinco e não conseguir as outras duas. Falando as sete isoladas, ela ainda pode errar a vogal dentro da palavra, como o paciente que falava "cacá" querendo dizer "cocô". O erro em vogal aparece no atraso motor de fala e na apraxia de fala na infância, e sozinho não define o quadro.
Dá para diferenciar os dois quadros numa criança não verbal?
Ainda não. Sem amostra de fala, não dá para fechar o diagnóstico. O primeiro passo é intervir, com uma intervenção diagnóstica, e identificar as características conforme a fala aparece. No caso 1, a criança chegou sem nenhuma palavra; com um mês de intervenção o transtorno motor de fala estava confirmado, e com dois meses o atraso motor de fala estava fechado.
Evolução rápida confirma atraso motor de fala?
Sozinha, não. O critério são as características, não a resposta. No caso 1, o que definiu o atraso motor de fala foram os sinais motores nas palavras que a criança passou a falar: dificuldade em alternar da protrusão para a retração, dificuldade na extensão da palavra, erro em vogal e coordenação deficiente de mandíbula. A resposta rápida, que não acontece na apraxia de fala na infância, entrou como mais um sinal.
Por que o caso de apraxia de fala na infância demorou mais?
Porque a falha está no planejamento e na programação motora dos sons. A criança fala uma parte da palavra e precisa planejar e programar uma segunda parte, diferente, e isso é muito difícil para ela. No caso 2, uma apraxia de fala na infância severa, foram seis meses até a criança falar as duas partes da palavra e perto de um ano até coarticular sem quebra.
Uma criança com TEA pode ter atraso motor de fala ou apraxia de fala na infância?
Pode. Os dois casos deste artigo são de crianças com TEA, e cada uma tinha um quadro: o mesmo diagnóstico inicial, com transtornos motores de fala diferentes. TEA e apraxia de fala na infância se confundem com facilidade, porque os dois reduzem o repertório de fala e trazem alterações de comportamento e questões sensoriais. Por isso a diferenciação fica mais visível depois da intervenção diagnóstica.
A intervenção muda entre os dois quadros?
O princípio é o mesmo nos dois quadros: pistas multissensoriais e princípios de aprendizagem motora da fala. O que muda é a etapa em que cada criança está e a resposta que ela dá à pista. Nos dois casos deste artigo, a intervenção começou antes de o diagnóstico diferencial fechar, personalizada para a etapa de cada criança.
Quatro semanas num caso, perto de um ano no outro. A velocidade separou as duas crianças. Os diagnósticos saíram das características que a fala de cada uma mostrou, e essas características só apareceram porque a intervenção começou antes de o diagnóstico fechar.
Método MultiGestos® Letícia
Fala Sem Limites
Letícia Silva é fonoaudióloga (CRFa 6-4549) e psicopedagoga, criadora do Método MultiGestos® Letícia. Atua na clínica há mais de 20 anos e tem + de 10 mil alunos (fonos, professores e mães). No Fala Sem Limites, curso exclusivo para a área da fonoaudiologia, o fonoaudiólogo que atende criança com transtorno motor de fala, ou ainda não sabe se o diagnóstico de fato é esse, passa a revisar e validar diagnósticos e a intervir.
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Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação fonoaudiológica presencial.
Publicado em 26 de setembro de 2026. Atualizado em 02 de outubro de 2026.